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domingo, 6 de março de 2016

Histórinha para não dormir


Há um monstro.
Não acredite naqueles que dizem o contrário.
Há um monstro e como monstro ele é mau.
Sua feiúra vem da sua maldade, não da aparência, que pode exalar inocência. O maior erro é acreditar na inocência que os olhos vêem, ignorando o gosto amargo que lhe sobe a garganta ao encarar tal criatura.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Meninas e Meninos


   A cozinha pequena estava enevoada pelos vapores das panelas que borbulhavam e chiavam no preparo do almoço. A moça que ali se encontrava seguia cantarolando mesmo com os respingos de óleo, ela havia sorrido enquanto cortava as cebolas e desta vez não se incomodou com a gordura que ensebava sua mão. Hoje, sete de março, era seu aniversário.
   Nas folhas abarrotadas do diário que guarda embaixo do colchão rabiscou planos e expectativas para essa data, esperava que seu namoro finalmente virasse noivado. Ela, Ana das Graças, se tornaria Ana Peixoto ainda esse ano, escreveu com caligrafia redonda e floreada.
   Do outro lado da cidade Marcos Peixoto esbravejava maldições a todos os santos e demônios porque seguia perdendo no dominó. Depois que metade do seu dinheiro pagou as apostas e o resto foi bebido em cachaça levantou-se cambaleante do banquinho. 
   Ou me rogaram praga ou esse jogo está roubado, vou me benzer e da próxima trazer a peixeira. Após suas ameaças costumeiras ele saiu do Clube Gávea trôpego, era frequentador assíduo, mas acima de tudo um homem de rotina. Nunca lembrava de passar pela igreja e pedir a benção e a peixeira ficava esquecida atrás da porta. Anunciou com xingamentos a chegada em casa ao tropeçar no tapete da sala. 
   Menino, vai comer para esse álcool sair. Marcos ignorou a mãe e seguiu direto para o quarto, deitou sem se dar ao trabalho de tirar os sapatos. Hoje em nenhum momento falou o nome da namorada.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Malandro em Primeira Pessoa


  Já estava escuro há algumas horas quando começou a chover. Numa esquina mal iluminada por pálido amarelo, me abriguei encostado numa ombreira à espera de um estio para que pudesse seguir caminho, estou fumando o terceiro cigarro e abandono qualquer esperança de chegar ao meu destino. O beiral não é grande o suficiente e os respingos de chuva mancham a barra da minha calça de modo que é melhor visitar Madame Hilda Venturini quando estiver mais alinhado. Não poderia caminhar por seu piso de mármore sem que meu reflexo nele me mostrasse impecável, afinal boa aparência é uma das poucas coisas que me restou e para mendigar desmazelado já existe plena concorrência. Não querendo desperdiçar o paletó branco decido me dirigir a um botequim, passei pela frente de um às pressas enquanto previa a chuva. A mim, Cássio Amarante, nenhum bar ou boteco passa despercebido.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Entrelaços


O dia estava nublado, mas não havia sinais de chuva. No caminho de terra que conectava a escola ao riacho uma menina andava de cabeça baixa chutando as pedrinhas que apareciam em sua frente, cada passo levantava uma pequena nuvem de poeira e seus sapatos de boneca já perdiam o brilho da graxa preta. De vestido cinza chumbo, blusa branca e cabelo metade trançado, ela trazia apertado em sua mão um pedaço de fita amarela.
- Maria! - gritou ainda de longe a menina de cabelos soltos e mesmas vestes que esbaforida estava correndo ao seu encontro. Tropeçou numa das pedras que foram movidas por Maria, mas nem assim conseguiu a atenção da outra. Levantou-se tão depressa quanto caiu nem se prestando ao trabalho de espanar a poeira do vestido, de faces vermelhas e cabelos agora desgrenhados tocou no ombro de Maria antes de chama-la mais uma vez.

- Cecília, o que faz aqui?
Antes de responder Maria, Cecília abriu um sorriso e mostrou duas fitas brancas.
- Vamos praticar como trançar juntas. A professora não vai se importar com a cor da fita se a trança estiver perfeita.

domingo, 21 de abril de 2013

enganações

Teias de sangue
Veias de piche


Qual máscara usar?



Fujam! Fujam!
Quando os dentes aparecem a mordida está próxima.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

procedimento


Abrir o peito, cuidadosamente - aplicando a força necessária - arrancar o coração e depositá-lo numa jarra. Lacrar bem.
Esquecer de sua existência e seguir sorrindo pelo mundo.


"Parece estranha a garota..."
"Bobagem; continua a mesma."

"Mas... Tem algo nos olhos..."
"Como reparar em contraste ao brilho dos dentes?"

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

sobre II (o outro lado)




Me tranco num quarto para então escapar.
Caso fugisse mundo a fora, não estaria livre da perseguição.
Em qual esquina a maldita sombra se esconderia?
Ao menos agora sei o que me espera do outro lado da porta.

Minha dor vem da laceração que tal monstro me fez.
Atônito; dias não me fizeram entender o que aconteceu.
O corpo definhou, chagas se alastraram...
A perversa figura segue me torturando.

A principio sussurrava desculpas, esticando os dedos pela fresta

Logo trouxe alimentos e remédios para demonstrar fundamento ao apelo
Não tardou a ceder ao cansaço e as palavras foram sumindo com o passar dos dias.
Os sons diminuindo até restarem somente passos e o arrastar da bandeja.

E embora a maldita presença não siga uma rotina, está sempre a espreita...
Usando remédios e comida para se reafirmar.
Migalhas.
Tentando reconquistar o que há muito foi morto.

O que deseja de mim?
Que o corpo se entregue para ter toda carne destrinchada?
Enquanto restarem forças não deixarei minha guarda baixa.
E beirando a loucura faço do meu cárcere a minha motivação
Pois embora da vida já não tenha apego,
Meu orgulho não me deixará morrer.

domingo, 30 de dezembro de 2012

falou o coringa


Minha rainha onde vais?

Por que vermelho é teu rastro se preto é tua cor?
Gasta tua espada dilacerando inocentes?

Quem mais inocente que teus próprios desejos?
Não são eles filhos bastardos a ti?

Olhe rainha, aqui estou.
Sempre observando teus passos gotejantes.

Majestade, sou apenas um fidelíssimo servo...
Embora sejam minhas as risadas que ecoam nas sombras.


sábado, 29 de dezembro de 2012

De quem odeia perder (ou Quartos; ou 2/4)

Encarou a porta fechada, centímetros distante do próprio nariz.
Suspirou, erguendo o punho deu leves batidas.
Chamou baixinho o nome, ainda nenhuma réplica.

Sabia que se virasse a maçaneta poderia entrar no quarto.
Porém antes de tudo queria escutar a resposta dele.


"Posso dormir com você?"

_____________________


Não falaria uma palavra a alguém, se recusava a formar qualquer pensamento sobre o assunto.
Ao entrar no quarto e ver a cama sem a outra figura ali deitada trazia a certeza da ausência.
Gostaria de apagar as lembranças e jamais ter visto os sorrisos sonolentos.
Ou o rosto sereno enquanto o peito se movimentava quase despercebidamente no corpo inerte.
Talvez juntamente esquecer os olhos despertos e todas as nuances refletidas.
Apenas a memória das risadas lhe trazem a boa sensação de morno ao peito; ecoam no vazio que ela deixou.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Babel


Eles se abraçaram.
Antes de seguirem caminhos distintos ela o fez se curvar e beijou-lhe a testa sussurando:

"Desejo tudo a você, o que lhe faça feliz."
"Por que sempre me deseja isso?"
"Porque não conseguirei ter o que desejo a mim."
"A outro pertence?"
"Ainda não, mas recusa-se a ser meu. Então apenas desejo-lhe tudo que o faça feliz."

Ele sorriu e calado foi embora.
Suspirou indo em direção oposta, não há necessidade em lutar por uma causa perdida.
Apenas desejava com todo o coração.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Diálogo diante um epitáfio

-Ei senhor, quem és?
-Ninguém.
-Mas o vejo.
-Vês uma idéia esquecida.
-Então és um morto em vida.
-Agora só morto.





terça-feira, 13 de setembro de 2011

egoismoepalavrasnaoditas

Ela entrou no apartamento imersa em pensamentos, só após tirar o casaco e por as chaves sobre a mesa notou alguém sentado no sofá.

De maneira confortável e deleixada, sua posição no sofá continuou a mesma enquanto a encarava terminar o ritual de chegada.


Ao fim de um demorado banho sentou no sofá e desejou ter algo que parecesse oportuno falar, mas lhe vinham apenas palavras de raiva e mágoa, então permaneceu calada olhando o visitante de soslaio esperando que as palavras dele fossem as primeiras.


Ele nada disse; um longo momento de silêncio desconfortável foi quebrado por uma piada dela, riu um pouco e aguardou até ela começar a discussão.


Irritada, pela postura silenciosa que ele sempre adota, perguntou o que fazia ali; seu constrangimento pela inesperada visita transformou-se em indignação.


Respondeu que veio pela conversa que deveriam ter e recebeu de réplica um comentário sarcástico sobre ela monologar -um exagero assim como a maioria das opiniões dela, mas não externou o pensamento e esperou que o resto do diálogo fosse conduzido.


Calou-se e resolveu nada falar até que ele o fizesse, havia cansado de gastar suas palavras tentando construir uma relação fadada ao fracasso.



Em silêncio ficaram.


terça-feira, 16 de agosto de 2011

descansar

É chegado o fim da Cruzada.
Hora de baixar as armas e descansar.
Não havia o Santo Graal escondido.
Nem houveram batalhas suficientes que o fizesse provável.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Diálogo de Viajantes (Descansando Sob a Mesma Árvore)

-Olá, estranho.
-Olá, senhora.
-Como têm sido os dias por essas terras?
-Tranquilos, boas colheitas fizeram as mesas fartas, embora o comércio esteja devagar.
-Fico feliz, uma mesa farta é sempre algo bom. Mas me diga, tem notícias sobre o reino?
-Apenas algumas fofocas da realeza...
-Conte-me por favor, gostaria de saber.
-Soube que a Rainha de Paus tem estado reclusa em seus aposentos e que o Valete de Espadas está duelando com qualquer um que cruze seu caminho.
-E sobre a Rainha de Copas?
-Seria rude comentar na sua frente, vossa majestade.
-Como descobriu sobre mim?
-Eu consigo ver o seu carmessim.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Trecho de um Caminho Tortuoso (ou Peçonha)

As mãos trêmulas da velha senhora agarraram o seu neto morto e ela rezou agradecida pelo fim do tormento.
Desejando que o vento levasse sua alma para terras boas mais rápido do que aquelas pernas cansadas fariam, cantou numa língua esquecida:

"Aqui não há prosperidade,
Aqui não há descanso,
Bons deuses carreguem esse espírito,
Pois o corpo teve o que mereceu."

Beijou a testa fria, deitou o corpo no chão ajustando a roupa empoeirada e colocou as mãos juntas sobre o peito; continuou o caminho que seguia sem olhar para trás, alheia aonde seus passos tocavam o chão pelas lágrimas que não permitiu cair.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

sobre

Algumas coisas morrem, outras apenas terminam.
Sem necessariamente um meio, tudo tem um fim depois do começo.


Morre um pouco por dia, a doença conquista seu corpo - e você desistiu.
Como lutar por alguém que já desistiu?


Tentei; falhei; desisti por um momento. Mas voltei e sua porta está trancada. Posso derruba-la, parte de mim acha que você quer isso; não vejo motivos para me esforçar já que não sei no que resultaria. Passo seus remedios e comida por baixo da porta, esperando encostada nela ouvir qualquer ruído.
Quem sabe você a destranque...
Quem sabe esteja tomando os remédios...
Quem sabe um dia noto o seu cheiro pútrido e ligo para a funeraria...
Quem sabe eu passe um bilhete e não volte mais...
"Senhor, já não o amo."

terça-feira, 20 de julho de 2010

O forno (09.05.09)

Hoje reuniriam-se com a expectativa de ser a última vez em vida. Um jantar definiria se continuariam sendo uma família. Tomou como sua a responsabilidade não deixar todos se separarem; prepararia a comida do exato jeito ensinado por sua mãe. Esperava que o paladar trouxesse a lembrança do que são, fazendo outro encontro vir e pouco após mais um, continuando unidos ate que ela própria morresse. O término das reuniões, depois, não a afetaria. A morte traz consigo um certo desapego.

Preparou o local de trabalho; organizou os ingredientes; iniciou a montagem de sua obra de arte. Ligou o forno, logo estaria quente: pronto para engolir a forma e vomitar salvação.
Após fechar a porta do pequeno realizador de milagres, o encarou. Não via nada em seu interior além da escuridão e perdeu-se ali.
O breu trouxe lembranças fragmentadas de sua história, alguns momentos com sua família. Continuou olhando fixamente o negrume e esqueceu-se o porquê. Sentimentos ruins vieram, pressentia todo seu trabalho sendo destruido.
Aquele não era um simples forno, mas um pequeno inferno instalado em sua cozinha. O resultado previsto seria alterado por aquela caixa de trevas. A reunião seria um desastre, além de jamais voltarem a encontrar-se as ligações também cessariam.
O jantar queimaria, e sua família por consequência. Sem saber os havia condenado à cremação. A comida estragaria junto às suas esperanças de que tudo terminasse bem. Ela viraria cinzas; além de espalhar-se ao vento o que poderia fazer?

Sua força é insignificante perto do compartimento maligno. Em pensar que precisava dele para completar seu plano, se arrependia. A expectativa do cheiro forte, lúgubre e sufocante já a envenenava.
No auge de seu desespero estático o telefone tocou. Deixaria o destino atuar e sai da cozinha. Ninguém virá. Desligou inconformada, nem se deu o ao trabalho de tentar remarcar o encontro.

Volta à cozinha e percebe que a comida está pronta. Pega uma porção e ao provar tem um breve esclarecimento. A culpa é dela que os chamou fantasiando com a possibilidade de todos ficarem bem. O forno faz a parte que lhe cabia. Sorrindo um pouco pensa que sua mãe ficaria orgulhosa, a comida estava exatamente como ela prepararia.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

hospício - XIV

Posso controlar meus sonhos, moldá-los a meu bel-prazer - a realidade é mais rígida e intragável. Talvez seja por isso que meu cigarro jaz apagado num cinzeiro imaginário; em meu reino onírico sinto-me viva sem precisar de provas físicas.

Enquanto a mente delicía-se com cores, formas e histórias, meu corpo permanece estático num cantinho escuro e sujo. Meu corpo faz do cantinho escuro e sujo. Escuro pois meus olhos cegos sugam dos arredores a luz, assim minha fuga nos sonhos torna-se ainda mais prazeirosa e alienadamente nescessária. Sujo por uma questão meramente biológica, afinal todo corpo exala odores do que é previamente absorvido.

domingo, 13 de setembro de 2009

hospício - XXXIV

Sinto que me observam, minha nuca queima como se houvesse caido ácido nela, isso não pode me impedir.

Corro pelos corredores tentando achar uma saída que parece inexistente. Entro e saio de salas; tudo é muito parecido, às vezes penso andar em círculo. Uso uma estratégia que lembra Teseu em seu labirinto. Poucas vezes volto a encontrar as manchas vermelhas, entretanto aindo continuo dentro do prédio. Isso me irrita.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

ancípite


Caminho na calçada de uma rua pouco iluminada. Escuto apenas passos e barulho de chaves, todos meus. Abro um portão que range; aperto o interfone que apita; pressiono o botão do elevador, mas acabo subindo pela escadaria. Prefiro ouvir passos e tilintar de chaves por algum tempo mais. Dois cliques e estou em casa.

Chaveiro em cima da mesa, bolsa no sofá, sapatos ao lado da porta e calça pendurada na cadeira. Janela aberta, cabelo solto e uma luz acesa. Barulho abafado de armário, som estridente de água em metal, zunido elétrico do fogão seguido de um plof do gás incendiando. Tinir de vidro ao fechar a geladeira, xícara com cinco colheres de café solúvel. Segunda luz acesa, roupas no chão do banheiro, água fria nos ombros, sabão cobrindo pele, xampu e cabelo. Toalha agora úmida, cortina aberta, nudez coberta, banheiro volta ao breu. Água fervente engolida pela xícara.

Vou até a bolsa, pego cigarros e isqueiro, volto ao café, coloco tudo no peitoril da janela. Por um momento estico o pescoço e observo os dois palmos de céu que a muralha de prédios a minha frente não conseguiu esconder. Antes de bebericar da xícara avalio o líquido negro fumegante. Essa noite não merece café, não seu sabor, um pouco de seu cheiro apenas. Da cozinha levo um copo com gelo até o minibar e apago a última luz; conhaque combina com meu humor ou sua falta.


Talvez não haja bebida que combine mais com seu teor alcoólico. Ah! O conhaque. Nem que soe tão sugestiva. Sua articulação traz implícito o ato de sorvê-la. A primeira sílaba e a primeira impressão, o líquido passa dos lábios e acumula-se em pequena quantidade na boca. Seguindo a pronúncia saboreia-se deslizando o sumo por toda extensão da língua. Para terminar, o engolir sucedido da expiração em deleite.


Retorno à janela. Próximo à quina direita há o café, no oposto o copo com gelo e álcool, exatamente no meio o maço aberto de cigarros com o isqueiro sobre ele. Os cotovelos estão no peitoril, formando um triângulo onde o vértice composto pelas mãos apoiam meu queixo. O quadro está pintado e sobra tempo para desfazê-lo.

Sem pressa examino as janelas que tomam o lugar do horizonte. A maior parte está apagada, algumas aparentam caleidoscópios refratando o colorido de televisões ou luminárias. Existem as que deixam transparecer sombras imóveis nas paredes, podendo ser computadores ou aquários, não importa a fonte o interessante são as sombras. Poucas trazem quadros que não sejam etéreos, como uma onde mostra um homem carregando um bebê de um lado para o outro, ou a que mostra dois idosos dançando. Vez por outra se acendem luzes de corredores e banheiros, poucas delas iluminam por muito tempo. Imagino que as não apagadas devem confortar alguma criança com medo de escuro. Embora em minha opinião não haja escuridão nessa cidade além da transportada pelas almas.

Um pouco desgastada de absorver tantos detalhes foco meus olhos na janela em frente a minha e tenho a surpresa agradável de ver-me refletida, mesmo que tenuamente. A xícara branca traz coloração marrom amarela, o copo é uma mancha luminescente, resolvo finalmente acender o primeiro cigarro da noite e um ponto avermelhado começa a compor a imagem. Uma tragada e lanço a fumaça para fora, ela não é perceptível em minha projeção. De meu corpo é visível ombros, braços, parte do colo e a cabeça, todo mais está engolido pelo preto. Rio com o pensamento de um humano composto apenas pelo que vejo agora, talvez seja um tanto sádico esse humor, mas encaixa-se perfeitamente com o ambiente. Talvez nem seja humor; prefiro bebericar o conhaque e esvaziar a mente, não quero destrinchar pensamentos. Volto a observar e fazer colocações mentais despretensiosas.


Passa-se tempo, minutos e horas. Alguns cigarros jazem no pires do café intocado. O copo tem um dedo de gelo derretido. Não há sono, porém tédio. Em breve o sol clareará o azul do céu e as responsabilidades serão jogadas em meus ombros, agora um pouco tensos pelas perspectiva e noite insone. Penso, antes de afastar-me da janela, que gostaria muito de poder ver o nascer do sol com todos os seus nuances mutáveis. Guardo e limpo tudo. Entro novamente no chuveiro. Preparo-me mentalmente para os sorrisos que darei depois que cruzar a porta do apartamento e durante toda minha estadia longe dele.

Ancípite, adj. 2 gên. (poét.) Que tem duas cabeças ou duas faces; de dois gumes; incerto. duvidoso, vacilante; (gram.) diz-se das consoantes l e r (Do lat. ancipite.)

Segundo o dicionário:

Devaneador, adj. e s. m. Que, ou aquele que devaneia; sonhador.

Devanear, v. tr. dir. Imaginar, fantasiar, sonhar; intr. delirar; dizer ou imaginar coisas sem nexo; desvairar; tr. ind. cuidar, pensar. (De de+lat. vanu.)

Devaneio, s. m. Ato de devanear; sonho; fantasia; delírio, divagação; quimera.
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